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Avaliação da Transferência de Imunidade Passiva em bezerros neonatos

por: Msc Nathália Brito Rocha – Dra Sprayfo Trouw Nutrition

A determinação da concentração da proteína total é um método indireto utilizado para estimar IgG no soro sanguíneo de bezerros (FEITOSA et al., 2001) em razão da influência da imunoglobulina G sérica de origem exógena sobre a proteína sérica (PAULETTI et al., 2002).

Considerando a composição plasmática com cerca de 91,5% de água, 7,5% de sólidos orgânicos e 1,0% de sólidos inorgânicos, cerca de 7%, da fração de sólidos orgânicos, é representada pelas proteínas plasmáticas albumina, globulinas, fibrinogênio e outros fatores de coagulação (GARCIA-NAVARRO, 2005).

Em bezerros recém-nascidos a fração proteína total do sangue apresenta boa correlação com a Ig colostral. Isto porque nas primeiras horas de vida o nível de albumina, a fração proteica no soro sanguíneo mais importante antes da colostragem, é pouco variável, logo as diferenças nas concentrações proteicas devem-se quase que exclusivamente à absorção de imunoglobulinas após a ingestão do colostro (FEITOSA et al., 2001). O que sugere a utilização da PT como método indireto para estimar a concentração da IgG sérico em bezerros neonatos (VILLARROEL et al., 2013).

Muito autores estudaram a correlação existente entre a PT e a IgG sérica em bezerros recém-nascidos (Tabela 2).  Entre os trabalhos encontrados há uma variação da idade dos animais para a determinação das correlações, o que pode influenciar na acurácia dos resultados, considerando que a relação existente entre estes dois parâmetros é variável com a idade em função da atividade de produção endógena de anticorpos com o avançar da idade e o amadurecimento do sistema imunológico.

Tabela 1.2. Levantamento dos valores de correlação entre Proteína total e Ig sérica de bezerros entre o nascimento e 120 dias de idade

Autor Metodologia Idade
Mowrey (2001) Biureto 24 horas 0,720
Quigley et al. (2002) Refratômetro óptico 24 horas 0,770
Quigley et al. (2002) Refratômetro óptico 24 horas 0,590
Slosárková et al. (2014) Diferença PT – Alb¹ 1 – 6 dias 0,950
Tyler et al. (1996) Refratômetro óptico 1 – 8 dias 0,760
Deelen et al. (2014) Refratômetro óptico 3 – 6 dias 0,720
Colloway et al. (2002) Refratômetro óptico < 10 dias 0,587
Colloway et al. (2002) Refratômetro óptico < 10 dias 0,596
Tyler et al. (1999) Refratômetro óptico < 21 dias 0,850
Villarroel et al. (2013) Refratômetro digital 1 – 30 dias 0,670
Pauletti et al. (2002) Biureto 1 – 60 dias 0,788
Teixeira et al. (2012) Turbidimetria por sulfato de zinco 1 – 120 dias 0,910

¹ PT = Proteína Sérica Total; Alb = Albumina

 

No trabalho com animais Holandeses e Jersey, VILLARROEL et al. (2013) encontraram os valores mais altos para as concentrações da PT e IgG ao 2º e 3º dia de idade, período no qual foi garantida a estimativa de alta concentração de PT e IgG. Segundo estes autores, o pico de concentração ocorre entre as primeiras 24 – 48 horas de idade como resultado da absorção sistêmica e circulação dos anticorpos maternais, necessitando portanto de um tempo para aparecer no soro.

As concentrações de imunoglobulinas G presentes no soro sofrem variações em função da atividade metabólica, que nas primeiras semanas de vida são altas para que as concentrações destes anticorpos alcancem uma quantidade fisiológica pré-determinada entre 20-25mg/mL. Em animais com concentrações de IgG séricos iniciais mais altos, a queda dos valores de proteína sérica total acontece de forma mais prolongada como consequência das atividades catabólicas. A estabilidade desta fração é alcançada por volta do 60º dia de idade em animais com adequada transferência de imunidade. Porém animais com baixa concentração inicial de IgG séricas às 24 horas, apresentam ausência da fase catabólica e como consequência da falha na aquisição de imunidade passiva, a síntese de anticorpos se estabelece desde os primeiros dias de vida (PAULETTI et al., 2002).

Segundo VILLARROEL et al. (2013), o decréscimo nas concentração de PT pode ser observado de forma mais significante com aproximadamente 2 semanas de idade. Este é o momento em que o ponto da PT permanece constante em 5,5g/dL, indicando que bezerros até uma semana de idade ainda estão aptos a serem utilizados na avaliação de FPT. Porém, os mesmos autores alertam para a necessidade de ajuste do ponto de corte utilizado para estabelecer inadequada concentração de PT, isto porque há uma diminuição de 0,07g/dL da proteína a cada dia durante a primeira semana de vida, acompanhada pela concentração de IgG, que no mesmo período decresce cerca de 74mg/dL cada dia.

Portanto, o diagnóstico da FTP deve estar associado com a combinação da determinação da Ig colostral e sérica, o que pode ser usado na garantia do sucesso da transferência de imunidade passiva (FLEENOR, STOTT, 1980), além de ser uma ferramenta de monitoramento sanitário do rebanho.

Além dos elementos do sistema imune, o sangue dos bezerros recém-nascidos compreende ainda uma série de substâncias e componentes bioativos importantes para a avaliação do status de imunidade. Dentre estes componentes, enzimas como a gamaglutamil trasferase (GGT) e a fosfatase alcalina tem suas atividades e concentrações alteradas com a primeira refeição após o parto.

Ao nascer, a concentração pré-colostral da GGT é normalmente muito baixo. No entanto, a presença desta enzima passa a ser detectável em algumas horas logo após a ingestão do colostro (ROCHA et al., 2012). Este aumento é ocasionado pela absorção da GGT oriunda do próprio colostro. Há registro da alta correlação entre as concentrações de proteína total com a atividade da GGT e das globulinas, bem como uma alta correlação entre a atividade desta enzima com a concentração sérica de globulinas no período de 24 horas após o nascimento (BRAUN et al., 1978; ROCHA et al., 2012).

No período perinatal, a ingestão do colostro exerce influência na atividade destas enzimas. Isto ocorre em razão da absorção das enzimas colostrais que são absorvidas ou mesmo como consequência da produção endógena (ZANKER, HAMMON, BLUM, 2001). Em função desta influência, Slosártová et al. (2014) sugerem a avaliação da atividade da GGT como um indicador da transferência de imunidade colostral. Estes autores afirmam que baixas concentrações de PT associados a baixas concentrações de Ig e de GGT no soro de bezerros indicam substancialmente uma imunidade colostral eficiente.

Obedecendo ao mesmo princípio do aumento da GGT, a fosfatase alcalina também apresenta aumento nos níveis sérico com a ingestão do colostro (ROCHA et al., 2012;). Braun et al. (1978) relataram alta concentração da fosfatase alcalina em bezerros alimentados com colostro. Da mesma forma, Zanker, Hammon e Blum, (2001) registraram o aumento inicial da concnetração da fosfatase alcalina em bezerros alimentados com o primeiro colostro entre 0 – 2 horas após o nascimento. Nestes trabalhos esses autores afirmam que este aumento foi possivelmente devido a absorção da fosfatase alcalina colostral, assim como a GGT, apresentando, estas duas enzimas, uma correlação positiva com a absorção de Ig no primeiro dia de vida (BRAUN, et al., 1978).

 

Referências

BRAUN, J. P.; RICO, A. Z.; BENARD, P.; THOUVENOT, J. P.; BONNEFIS, M. J. Blood and Tissue Distribution of Gamma Glutamyl Transferase in Calves. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 61, p. 77-90, 1978.

FEITOSA, F. L. F.; BIRGEL, E. H.; MIROLA, R. M. S.; PERRI, S. H. V. Diagnóstico de falha de transferência de imunidade passiva em bezerros através da determinação de proteína total e de suas frações eletroforéticas, imunoglobulinas G e M e da atividade da gamaglutamiltransferase no soro sanguíneo. Ciência Rural, Santa Maria, v. 31, p. 251- 255, 2001.

FLEENOR, W. A. and STOTT, G. H. Hydrometer Test for Estimation of Immunoglobulin Concentration in Bovine colostrum. Journal of Dairy Science, Champaign, v.63, p. 974-977, 1980.

GARCIA-NAVARRO, C. E. K. Manual de hematologia veterinária. 2ª ed. Varela, São Paulo, 2005, 206p.

PAULETTI, P.; MACHADO NETO, R.; PACKER, I. U.; BESSI, R. Avaliação de níveis séricos de imunoglobulina, proteína e o desempenho de bezerras da raça Holandesa. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v. 37, p. 89-94, 2002.

ROCHA, T. G.; NOCITI, R. P.; SAMPAIO, A. A. M.; FAGLIARI, J. J. Passive immunity transfer and sérum constituents of crossbred calves. Pesquisa Veterinária Brasileira, Rio de Janeiro, v. 32, p. 515-522, 2012.

SLOSARKOVA S., FLEISCHER P., PENKAVA, O., SKRIVANEK, M. The assessment of colostral immunity in diry calves based on serum biochmical indicators and their relationship. Acta Vet, Brno, v. 83, p. 151 – 156, 2014.

VILLARROEL, A.; MILLER, T.B.; JOHNSON, E.D.; NOYES, K.R.; WARD, J.K. Factors Affecting Serum Total Protein and Immunoglobulin G Concentration in Replacement Dairy Calves.  Advances in Dairy Research, v.1: 106, 2013.

ZANKER I.A., HAMMON H.M., BLUM J.W. Activities of γ-glutamyl transferase, alkaline phosphatase, aspartate-aminotransferase in colostrum, milk, blood plasma of calves fed first colostrum at 0±2, 6±7, 12±13, 24±25 h after birth. Journal of Veterinary Medicine Association, Physiology and Pathology Clinical Medicine, Berlin, v. 48, p.179-185, 2001.